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Literocupa: um ano de saraus, música e desafios

Os saraus que abriram espaços para a produção literária na periferia de São Paulo fizeram escola. A atuação dos coletivos, que deu voz à chamada literatura marginal a partir de 2001, proliferou e se firmou como movimento de grande proporção. Do precursor Sarau da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), criado pelos poetas Sérgio Vaz e Marco Pezão, ao Sarau Elo da Corrente, fundado por Raquel Almeida e Michel Yakini (que terá seu livro lançado pela 11 Editora), todos têm como temática comum a realidade dos bairros periféricos, denúncias sociais e a arte como elemento socializador e de resistência.

Realizados em bares, espaços públicos e bibliotecas, com microfone aberto para declamação de poemas e outras performances, como os slams (batalhas de poesia), acabaram se replicando em outras cidades. Em Jaú, interior paulista, os saraus têm sido realizados pelo coletivo Literocupa, que vai festejar seu primeiro ano de atividades no dia 10 de setembro. A estudante de Letras Tamires Frasson, uma das fundadoras do projeto, concedeu breve entrevista à editora Léa Prado, para o blog 11 Editora.  

 

11 Editora – Quando surgiu a ideia de criar o Literocupa?

Tamires Frasson – O Literocupa é um projeto independente da cidade de Jaú e a ideia de sua criação surgiu em 2016, quando comecei a organizar, ainda sozinha, alguns saraus em bairros. Nasceu com o objetivo de ocupar os espaços públicos e apresentar à população as diversas formas de poesia e proporcionar a troca de experiências, um intercambio artístico. .

11 Editora – Quantas pessoas participam atualmente do coletivo?

Tamires ­ –  Na criação, foram 3 pessoas: eu, Flavia e Ana Luiza. Aí logo depois do primeiro sarau, chegou o Kleber e o grupo foi aumentando. Hoje somos cerca de 20 pessoas na estrutura e mais 10 pessoas que nos ajudam durante os eventos. A idade média dos participantes é de 25 anos.

11 Editora – O foco principal é a literatura? E para que público se destina?

Tamires – O foco principal é mostrar que literatura não é só aquilo que estamos acostumados a ver em livros, nas livrarias, coisas escritas por autores famosos. É mostrar que a literatura pode chegar na periferia, que a poesia é para todos, e que existem muitas formas de arte. O Literocupa se destina à toda população, mas em especial àqueles que vivem às margens da sociedade, para que tenham acesso à cultura de maneira democrática. O que esperamos, por meio da arte poética, é formar novos leitores e autores, apresentar a poesia como forma de resistência às opressões da vida urbana moderna.

11 Editora – O lema do grupo é “a poesia salva”. Salva mesmo?

Tamires – Com isso, nós queremos dizer que por meio da poesia é possível transformar uma cidade, e que ela pode realmente salvar. Muita gente chega até nós, depois de alguns saraus, e confirmam: dizem que a poesia salva mesmo. Querem dizer que a partir do momento em que tiveram esse contato maior com a poesia, mudaram algumas ideias, abriram a mente para algo novo e, automaticamente, evoluíram enquanto cidadãos.

11 Editora – Existe algum movimento de arrecadação ou doação para os saraus?

Tamires – Sempre tentamos apoios culturais com itens para cantinas ou diversos. Fazemos nossa cantina, onde vendemos alguns itens para arrecadar os valores suficientes para pagar aluguel de equipamento de som, produtos de limpeza, materiais para as oficinas e ajuda de custo aos artistas que vêm de outras cidades. É importante ressaltar que somos um projeto independente e sem fins lucrativos, e que todos os artistas se apresentam sem cachê.

11 Editora – Como são escolhidos os locais?

Tamires – Sempre procuramos locais de fácil acesso ao público, centro da cidade, por exemplo. Mas a meta é ir explorando vários lugares, chegar em diversos bairros também.

11 Editora – O projeto chega aos bairros da periferia?

Tamires – Por enquanto, só realizamos trabalhos no Frei Galvão, e no Pires II, onde passamos a ter um projeto fixo lá, aos sábados, na Escola Estadual Jardim dos Pires.

11 Editora – Há alguma parceria com o poder público?

Tamires – Não há. As únicas parcerias que aconteceram foram para a liberação dos espaços públicos e em dois eventos que realizamos, nos quais a Prefeitura disponibilizou equipamento de som e iluminação. Estamos nos organizando para fazer a Virada Cultural de um ano de coletivo, já temos a programação montada, com artistas locais e da região. Porém, estamos encontrando problemas para conseguir um espaço público. Tentamos autorização para usar praças, o Museu (que foi onde fizemos o lançamento do projeto) e, por último, a Estação do Som (Estação Ferroviária), onde foi nos informado que haveria uma taxa no valor de R$ 300,00, mas que, mesmo pagando esse valor, não poderíamos usar as salas para fazer as oficinas, a cozinha e nem os banheiros, pois os mesmos estão em reforma. E não foi nos dada nenhuma outra opção. Agora, apareceram alternativas de locais para realizarmos a Virada. Muitos jovens que acompanham nosso trabalho se mobilizaram para encontrar uma solução. Estamos no aguardo da Secretaria do Meio Ambiente quanto à liberação da Praça do Museu ou da Praça da Matriz. Se não for uma resposta positiva, partiremos para as outras alternativas propostas pelos nossos seguidores, como salão da ONG 1%, ou quadra do Jardim Maria Luiza, por exemplo. Uma pena não estarmos conseguindo o mínimo apoio possível da Secretaria de Cultura.

11 Editora – Que avaliação você faz deste primeiro ano do Literocupa?

Tamires – As maiores dificuldades estão em encontrarmos parcerias mesmo. Queremos ser vistos pelo poder público com o mesmo respeito com o qual estamos sendo vistos pela população, que sempre nos recebe de braços abertos onde formos. Evoluímos muito durante esse um ano e ainda temos muito o que evoluir. Mas já deu pra perceber as feridas que os jauenses têm e como trata-las: com muita poesia! Queremos continuar expandindo esse intercâmbio artístico entre os artistas locais e da região e mostrar que nós podemos, sim, ter acesso a diferentes culturas, isso que é o mais legal. Nosso público vai desde crianças a adultos, onde misturam-se pessoas que gostam de rap, rock, samba... tudo num mesmo lugar, com muito respeito! Assim, todos passam a enxergar a cultura do próximo com mais consciência.

11 Editora – E os planos para o futuro?

Tamires – Para o futuro pensamos em realizar um sarau por mês, e continuar levando poesia a todo mundo! 

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