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Sorrir

Ária ainda não completara um ano quando começou a sorrir desbragadamente. Era um gesto tão natural que muitas vezes nada precisava ser dito: bastava um olhar, e ela sorria para o conhecido como se estivesse vendo ali, materializada, a felicidade. E talvez estivesse mesmo. Só a inocência diante do mundo para caracterizar gestos de tamanha pureza.

Quando ria, Ária o fazia com o coração, muitas vezes erguendo os braços para o seu destinatário, como quem diz, “recebe o riso que agora te entrego”. E era inevitável querer tomá-la entre os braços, ou beijar seu rosto – só para receber mais risos e sorrisos. Essa ficou sendo, então, a grande característica da Ária, filha de um casal de amigos queridos.

Por isso mesmo, depois de algum tempo sem vê-los, meu dia ficou árido quando sua mãe entrou com ela em casa e foi logo me dizendo: “Ária não ri nem sorri mais como antes”. Aquilo me impactou de uma maneira que eu não dei a perceber, mas genuína. Que poderia eu contra os desígnios de uma criança, ainda que eu não o compreendesse? Pois eu não acreditei. Fui até ela e sorri. Nada. Fiz palhaçada, que sempre dava resultado. Indiferença, no máximo um olhar curioso.

Fiquei amuado e intrigado, mas mantive a compostura. Eu não compreendia que o crescimento daquela criança também implicava em gestos menos condicionados, talvez pela minha recusa em acreditar que um sorriso pode não se extinguir, mas se transformar.

E o sorriso pode confundir a cabeça das próprias crianças. Uma amiga certo dia me contou que apresentou o filho a um casal de amigos. Um, sorria muito e sorria sempre, resvalando muitas vezes num riso gostoso e contagiante. O outro apenas sorria com os lábios, mais taciturno. Ao que o filho dela perguntou: “Mãe, o Thiago é triste ou é o Márcio que sorri demais?”. Eu consigo entender sua confusão.

Desde a infância sou conhecido como um cara carrancudo – até que de fato me conheçam, quando a convivência com o meu humor dá um ar de leveza a um rosto que, em repouso, não faz opção pela descontração. Paciência. Mas foi por tantas vezes ser considerado um cara “fechado”, que compreendi a importância do sorriso.

Talvez a primeira lembrança que eu trago dessa seara foi quando uma aluna, num dia de prova, disse a mim que minha cara sisuda a fazia temer ainda mais a prova. Eu estava no começo da carreira e não soube muito bem o que responder; mas disse – sorrindo – que em dia de prova não se pode ser gaiato demais, sob o risco de terminar fazendo a prova pelo aluno, ou alguma outra bobagem do gênero. Ela entendeu que não era nada pessoal e fez uma boa prova.

A verdade é que, de fato, um sorriso é capaz de selar condutas, gerar uma convivência harmoniosa, abrir espaço para duas características importantes: não guardar rancor e ser capaz de perdoar. A importância social do sorriso, portanto, é inegável. Não é sempre tarefa fácil. Em tempos em que o ódio parece tomar a dianteira, sorrir parece ser uma afronta às correntes atuais. Não ao sorriso banal, ou mesmo a sorrir bestamente, ser um bobo-alegre. Estou a falar do sorriso capaz de tecer o fio que constroi a beleza, a leveza. É como o sorriso do povo mexicano, onde pude estar recentemente. Vê-los, no meio da correria diária, tão dispostos a receber o outro com um sorriso não apenas os torna mais leves, mas também os dias que estão a caminho.

 Minimizar a importância do gesto (ato?) é não levar em conta a força que ele tem. Não falo, claro, dos sorrisos feitos sob encomenda, para fotos, ou que marcam o fim de uma reunião de chefes de estado que chegaram a algum acordo para suas nações.

Refiro-me aqui ao gesto genuíno, marcado pela felicidade de um reencontro  ansiosamente aguardado, pela saudade dos que se amam, por terem encontrado um ente querido que já se pensava ter morrido, pelo encantamento diante do contato com lugares que despertam sensações imensuráveis. O prazer contagiante de um sorriso sincero nunca é em vão.

Por isso, faço voto de que possamos nos abrir mais para a possibilidade de um sorriso, daquele sorriso que, sem dizer uma única palavra, noz diz “sim”.

E um sim, sabemos, é transformador. Age como aconchego, remédio e lugar de repouso. É através desse sim que estende uma mão, que nos conectamos com o outro.

E um sorriso pode ser a ponte que transforma o não numa confirmação.

Que todos os sorrisos sejam sempre bem-vindos.

Marco Severo é professor e escritor

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