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Uma palavra acerca do bigode de Salvador Vargas

Numa certa manhã, ao acordar patrocinado por uma vontade premente de mudança, Salvador Vargas dizimou o largo bigode que mantinha desde a sua juventude, havia mais de cinquenta anos.

Embora esperasse pelo estranhamento, próprio e alheio, o homem aprovou o resultado, lamentando apenas a indiscreta faixa branca que se punha no lugar dos pelos. Como ainda era meio de manhã, a mulher trabalhando na feira, vestiu a roupa velha e saiu para uma ida à venda.

“Bom dia, seu Salvador!”, disse-lhe o lavador de carros, enquanto investia uma volumosa peça de estopa contra um Ford caindo aos pedaços, encharcado de água e espuma.

Salvador Vargas pensou que sim, estava tudo bem. Melhor seria mesmo que ninguém notasse a mudança, porque, vejamos, o assunto era de cunho estritamente pessoal.

Na venda, contudo, o resultado não foi o mesmo. Argemiro e Mathias, companheiros de longa data, logo puseram pilha contra o pedreiro.

“Quede o rabo de anu, Salvador?”, brincou Argemiro.

“O bicho fugiu da gaiola!”, emendou o Mathias.

Também, senhor Sebastião das Palmeiras, dono da venda, acostumado com o trio de amigos, ponderou com tom de demasiada ingenuidade a retirada do bigode.

“Foi acidente com a gilete, Salvador? Comigo sempre acontece!”

Salvador Vargas armou de imediato a braveza na cara, a fazer entender que naquele dia, definitivamente, não estava para brincadeiras ou conversa fiada.

“É só um bigode, porra!”, acompanhava a resposta um forte gestual.

Na saída do bar, batendo sem querer com o padre Aramir, a quem tinha em alta consideração e respeito, o homem logo retirou o chapéu, em sinal de marcada educação.

“Meu filho, o bigode...”, disse-lhe o padre. Disse e ficou sem resposta, porque Salvador Vargas armou novamente o contrário na cara; parecia bravo como cão enxotado. Meteu o chapéu com força na grimpa, e nem dignou palavra.

Salvador Vargas passou a manhã esperando a mulher chegar. Afinal de contas, ela é quem poderia recolocar nos trilhos ordem que claramente se descontrolava. A esta altura, o homem estava absolutamente convencido de que, tendo retirado um bigode tão significativo como era o seu, havia atentado contra a própria índole. Agora, quando se lembrava do avolumado de pelos grossos e bem penteados, batia a palma da mão contra o rosto e descia vagarosamente até o queixo, apertando-a firmemente contra a ausência do bigode, a convalidar o ato imprudente que havia praticado.

A mulher chegou cantarolando, como fazia todos os dias. Pousou na mesa uma cesta com as sobras das hortaliças e frutas. O marido, tendo o coração nas mãos e o desgosto plantado na cara, apareceu à porta timidamente, deixando-se ver.

 “Olhe só, que elegância! Você remoçou vinte anos, Salvador”.

Salvador Vargas veio de vez para o centro da cozinha, para que a mulher pudesse inspecionar a mudança com toda diligência.

“Adorei a surpresa, meu querido! Você está lembrando o Roberto, não acha?”

Roberto Vargas era o filho mais velho do casal, tinha lá seus trinta anos, e era pintor de paredes. Um homenzarrão forte e espadaúdo, o rosto era severo, com nariz e olhos bem delineados. Às vezes, quando o filho estava sentado à mesa, durante o almoço, Salvador Vargas ficava absorto, admirando a fisionomia do menino, era possível tanta altivez dentro de um rosto? Agora, com a comparação a que se arriscava a mulher, Salvador pensava que havia ali certo exagero.

Izildinha era assim mesmo, sempre muito cortês com todo mundo, capaz de evitar qualquer descompasso no coração de uma pessoa. A mãe dela, quando viva, sempre dizia, “Você é tão boa que é até tonta, Izildinha. Se avexe!”.

O filho mais novo era Aparício Vargas, e os doze anos de idade não foram suficientes para, diante do pai, evitar uma cara de espanto. O menino estranhou tanto a mudança que, por um átimo de segundo, não expôs verbalmente o que lhe afligia em pensamento:

“Quem diabos há de ser esse sujeito?”

Foi novamente a mãe, dona Izildinha, que impediu a fatalidade.

“Veja como o pai ficou bonito, filho!”

O menino armou um sorriso no rosto, seria mesmo seu pai aquela figura estranha? Com uma faixa branca asseverando um riso que pedia travessuras de palhaços.

“É, foi dizendo o menino, ficou bonito demais!”

As palavras de Aparício, contudo, apoiavam-se tão inocentemente na ironia, que os três, pai, mãe e filho, puseram-se a rir sem nenhum pudor.

E assim seguiu-se a mais variada forma de reação, diante dos flagelos dos idos pelos de Salvador Vargas. No serviço, o mestre de obras também não o reconheceu, chegou a perguntar ao estranho quem lhe dera ordem para mexer nas ferramentas.

Dona Gracia, vizinha de longa data, estendia roupa no varal quando viu Salvador Vargas passando, lançou um olhar de simpatia e excitação. Mais tarde, recomendou ao marido, o carvoeiro, que procedesse da mesma maneira do vizinho, e logo desse cabo daquele bigode horrível, o que ela chamava, no auge de suas explicações, de “essa coisa primitiva”.

“Salvador sacou o bigode, foi?”, replicou o homem, pondo-se incrédulo.

O barbeiro, por sua vez, lamentou não ter podido ele mesmo realizar a façanha. Confessou a Salvador, inclusive, já em tom de frustração, que nunca vira em toda a sua vida profissional bigode tão apanhado, volumoso e bem penteado.

“Mas, se quer saber, eu aprovo a mudança!”.

“É bom mesmo, comentou Salvador, porque agora até não crescer outra vez, não tem outro jeito”.

No sábado seguinte, pela tarde, estando Salvador Vargas sozinho sentado no largo do bar de Alípio Ferranhos, velho amigo e comerciante, chegou-lhe, pela a mão de um menino de rua, um bilhete anônimo, onde se lia uma mensagem com ressonâncias bíblicas:

 

Em todas as coisas há uma ordem natural de existência, será necessário que o senhor recomponha o bigode.

Aquilo havia de ser brincadeira, coisa do Argemiro e do Mathias, possivelmente. Ou, talvez, dos colegas da obra. Salvador Vargas olhou ao redor, não havia ninguém por ali. Só mesmo o senhor Alípio, que jogava conversa com um cidadão amulatado no balcão.

Hora mais tarde, voltou o menino do bilhete. Deu-lhe novo papel. Sem perder a chance, Salvador Vargas tomou o pivete pelo braço, enquanto lia o aviso.

Recomponha o bigode, imediatamente. Trata-se de caso de vida ou morte.

Salvador já não estava gostando nada daquilo:

“Escute aqui, moleque, quem é que está lhe mandando trazer os bilhetes?”

O menino nem titubeou, tendo a enorme mão do pedreiro envolvendo o pescoço por detrás, disse de uma vez:

“O padre!”.

Salvador dirigiu-se imediatamente à igreja. O templo estava vazio, assombrado pela paz corriqueira das casas religiosas. Uma freira, logo que viu o homem entrar, como se estivesse à espera da visita, apontou o confessionário, e depois, persignando-se, sumiu rapidamente para dentro da sacristia.

“Que é que está acontecendo, padre?”, logo foi perguntando o pedreiro, algo abrupto.

O padre, que ainda se escondia no segredo do confessionário, soltou uma voz acabrunhada:

“Você não entende, meu filho, o bigode...”

“O que é que diabos tem o bigode, padre?”

“Olha o jeito de falar, meu filho!”

Salvador Vargas manteve o silêncio por alguns instantes, mas depois reclamou:

“Eu não quero nem mais um pio acerca desse meu ato, senhor padre. Sou homem crescido, livre e tenho esse direito. Até mesmo o senhor, veja só! Homem de minha mais alta estima e querência, sinceramente, o que lhe interessa um bigode? E logo o meu?”.

Foi então que o padre Arismar, sujeito bondoso e de reconhecida paciência, pôs abaixo a trava da portinhola do confessionário, e fez vagarosamente aparecer a enorme carranca. Salvador Vargas engoliu a voz e, com o susto, deu um sobressalto. Nem era preciso dizer palavra, reconheceu de imediato seu largo e bem penteado bigode, agora estampado no rosto do padre. 

Carlos Eduardo Monte é advogado, mestre e doutorando em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara

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